Apr 2, 2009

No ar

No ar

Ele olhou atentamente para o final do corredor onde a curva acontecia. O corredor, frio e úmido, passava a sensação de aprisionamento. Não havia janelas nas paredes de pedra. Através das grades via-se a leve iluminação de uma tocha se aproximando. Seus lábios, secos, tentavam formar um sorriso, após cinco anos de dor.

O som das botas ecoavam pelo corredor e ficavam cada vez mais alto. Um novo som, diferente do gotejar com o qual estava tão acostumado, fez seus tímpanos latejarem, não de dor, mas de outro sentimento. Ele saiu da grade presente na porta de sua cela e dirigiu-se para o canto no qual dormia, suas costas estalaram-se ao curvar. Ele tentava se lembrar do cheiro dos campos de centeio, o toque de outro ser humano, o gosto da água doce dos rios cristalinos, a beleza dos pássaros ao amanhecer. Já fazia muito tempo que ele esperava por este momento, cinco anos preso em um cubículo escuro e imundo, abandonado pelo mundo.

O barulho do girar da chave o fez lembrar de onde estava. Fazendo esforço ele levantou-se e se dirigiu lentamente até a porta, agora aberta e parou. Sua visão do corredor era mais ampla, clara. A luz da tocha ao seu lado fazia seus olhos arderem. Fazia tempo que estava dentro daquele lugar escuro, privado de qualquer fonte de luz externa. Lentamente ele se acostumou com a presença da tocha. Ele olhou para o lado e conseguiu, pela primeira vez em tantos anos, ver aquele que o havia alimentado e, agora, libertado. O guarda olhava para a parede do outro lado e permanecia calado. Por algum tempo o prisioneiro permaneceu parado, olhando para o fim do corredor. Ele então moveu, lentamente, seu pé direito para frente. Seus ossos estalavam e seus músculos, atrofiados, tinham dificuldade para segurar o resto de seu corpo. Durante um momento de vacilo, o joelho esquerdo dobrou-se pelo peso de seu corpo. O guarda permaneceu parado. Apoiando nas duas mãos, o prisioneiro levantou-se. Aos poucos ele foi se acostumando com o peso absurdamente leve de seu corpo. Durante o processo, ele observou seu torso e pernas, magras, sujas, apodrecidas pelo tempo. Ele andou, seguido pelo guarda, lentamente até o final do corredor, onde a curva acontecia.

Após a curva, que tanto observara, que tanto meticulara, possuía algo pelo qual não esperava. Depois de um certo tempo isolado do mundo, é comum, para que não enlouqueça, que o preso comece a indagar sobre o que nunca indagara, é isso o que acontece quando se tem muito tempo livre. Primeiro, ele se perguntou como as coisas deveriam estar do lado de fora - nada boas sem ele, pensou. Ele então passou a se torturar por não saber qual era o nome do guarda que o havia alimentado e agora o levava para seu destino - Evandro talvez? No final, ele fixou sua mente no que havia no final do corredor. Para a pergunta final, que costumava fazer a si mesmo ao acordar e antes de dormir, inúmeras respostas viam a cabeça, mas nenhuma delas representava o que ele via. Uma singela porta, feita com um estranho material, cinza e brilhante, mostrava o reflexo de sua face. Ele não reconheceu de quem era aquele reflexo. Não porque estava suja, mas parecia ser outra pessoa. Ele levou suas mãos à sua face, o reflexo mimetizou seus movimentos. Sua pele ficou pálida, assim como a do reflexo. As mãos do guarda chegaram até a porta, mas não eram as mesmas mão de antes, estas usavam uma longa luva branca, feita com um estranho material. Ao abrir a porta, um luz forte cegou o prisioneiro.

O quarto era grande e iluminado, as paredes eram brancas, assim como a única cadeira e uma cama. Ao lado da cama, um dispositivo estranho, mágico se possível, mostrando em um tela de vidro linhas que faziam desenhos de montanhas e então desapareciam, em um ciclo que nunca parava. A máquina se ligava à pessoa que estava na cama. O ser humano deitado parecia estar em sono profundo, sem nem ao menos se mexer, a não ser pelo seu peito, que permanecia em simetria com a máquina ao seu lado. O prisioneiro olhou ao seu redor novamente e notou que o guarda havia sumido, a porta havia se fechado. Seu reflexo continuava lá, imitando seus movimentos no corpo de outro. Ele voltou-se para a cama e olhou fixamente no homem nela deitado. Ao chegar mais perto ele pode notar que o homem deitado era o mesmo que imitava seus movimentos na porta. O prisioneiro afastou-se bruscamente do homem e caiu na cadeira. A sala ao seu redor começou a girar, quase como se estivesse em um redemoinho. Seu rosto, cada vez mais pálido. Enquanto girava, ele perdia o foco, sua visão embaçava. Antes de perder completamente a visão, ele ainda conseguiu ver várias pessoas entrando na sala, pela mesma porta que ele. Todas vestidas de branco. Sua visão embaçou até não conseguir ver mais. Tudo então ficou escuro e ele perdeu-se nessa escuridão.

1 comment:

Heloísa said...

muito perfeito isso!!!
paulo me passa seu msn por favor!!!